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Geografia – Abrangência e diversidade

Prof. Omar Fadil Bumirgh

Apesar das diversas tendências e variações de forma e conteúdo entre os vestibulares, as provas de Geografia apresentam algumas características comuns:

– grande abrangência do programa, pressupondo conhecimento do conteúdo referente à matéria do Ensino Fundamental e do Ensino Médio;

– marcante diversidade de assuntos da disciplina, que trata de aspectos naturais, humanos, econômicos, socioculturais, geopolíticos e ambientais;

– uma tradicional divisão entre questões de Geografia do Brasil (problemas sociais e urbanos, ambientais e econômicos – agropecuária, indústria, transporte e recursos naturais –, fontes de energia e minérios), além de domínios naturais, Geografia Geral – geopolítica, mundo contemporâneo –, cartografia, pedologia, geomorfologia, climatologia, geopolítica dos mares e oceanos, problemas ambientais, economia mundial [agropecuária, indústria, transportes e recursos naturais – fontes de energia e minérios –, além problemas populacionais [urbanos e sociais] e Geografia Regional do mundo [Estados Unidos, União Europeia, Rússia, China, Japão, Índia, Tigres Asiáticos, América Latina, África Subsaariana, Mundo Muçulmano – África Mediterrânea e Oriente Médio];

– na maioria das provas predominam questões de Geografia Geral (50%), seguidas de Geografia do Brasil (40%) e Geografia Regional do Mundo (10%);

– existência de questões de atualidade que supõem informação sobre eventos e fatos recentes (inclusive nos meses imediatamente anteriores à prova) de âmbito nacional e internacional, tanto na política, como União Europeia e construção de muros na Cisjordânia, quanto na economia e sociedade, com questões sobre a globalização, e meio ambiente, como a prática da biopirataria;

– grande número de questões que exigem capacidade de compreensão e análise de textos, tabelas, gráficos e mapas, como aquelas relacionadas à cartografia;

– as questões nos atuais vestibulares vêm privilegiando a interdisciplinaridade e temas que possam ser contextualizados. Dessa forma, mesmo temas tradicionais acabam tendo uma abordagem mais atual.

 

Enem

A prova do Enem 2016 seguiu a tendência de um maior número de perguntas sobre temas atuais: quatro sobre Mundo Contemporâneo/Nova Ordem Mundial (duas ligadas aos avanços tecnológicos, uma sobre blocos econômicos, uma sobre a China), preocupando-se principalmente com a questão ambiental, nos temas que mais estão em pauta nas atuais discussões mundiais: o aquecimento global, com duas questões, e o comprometimento cada vez maior dos recursos naturais, principalmente os hídricos (uma questão sobre a água e uma sobre a pesca predatória). Sem contar que outras duas questões abordaram pontos ambientais no Brasil, uma delas sobre os hotspots, biomas que se tornaram prioridade nas políticas conservacionistas: o cerrado e a Mata Atlântica. Foram abordados também assuntos considerados clássicos no estudo de Geografia, caso de questões físicas, como uma de Cartografia e uma de vegetação brasileira, e humanas, com uma sobre a população mundial (Demografia) e duas sobre o processo de urbanização no Brasil.

A prova apresentou um nível médio de exigência em exercícios que dependiam de interação com questões cotidianas, sendo fundamental, por exemplo, a leitura de jornais, revistas e da mídia digital, como na questão que abordou a China: sua necessidade cada vez maior de se afirmar como potência mundial, reivindicando ilhas atualmente sob a soberania do Japão, seu histórico rival, cujas rusgas da invasão sobre a Manchúria ainda estão latentes. O caráter de atualidade do Enem 2016 é provado com um tema que está transformando a economia brasileira: o agronegócio.

 

A prova também seguiu a tendência de se apoiar na habilidade de analisar imagens, como nas questões sobre a urbanização brasileira.

Pode-se dizer que para enfrentar com tranquilidade a prova de Geografia do Enem é fundamental para o aluno estar envolvido com as discussões sobre o mundo em que vive, especialmente no que tange às questões sobre o meio ambiente e a globalização.

 

 

 

Fuvest

A Fuvest 2017 manteve o padrão de um exame com questões inteligentes e criativas, que exigem bom domínio dos conteúdos programáticos, capacidade de inter-relação entre os vários aspectos que compõem o espaço geográfico para melhor compreendê-lo, capacidade de interpretar mapas, imagens e textos. A boa capacidade redacional foi fundamental.

Na 1ª fase da Fuvest, 80% das questões de Geografia se caracterizaram por um nível elevado de complexidade. Das 14 questões, 10 concentraram-se nos clássicos temas de Geografia Física, com uma sobre Hidrografia, uma sobre Vegetação, uma de Cartografia e uma de Relevo do Brasil, e quatro de População, ou seja, foram muito bem distribuídas pelas diversas partes do programa. Na questão sobre Cartografia usou-se da anamorfose (mapa temático na questão nº 37), que exigiu do candidato estar bastante consciente sobre a Geografia tradicional. No caso da questão sobre relevo brasileiro (nº 39) foi vital a compreensão dos fenômenos naturais e de conceitos há muito não cobrados, como rios “anastomizados” (questão nº 35), resgatando a importância do ensino da Geografia menos envolvida com questões atuais.

Isso não significa que questões atuais foram deixadas de lado. A questão sobre a exploração do xisto nos EUA (nº 38), além de reforçar a ideia da autossuficiência daquele país em petróleo (do óleo extraído das areias betuminosas), destacou a importância da busca por fontes de energia, de preferência limpas, já que a extração dessa rocha betuminosa causa um impacto ambiental assustador, tanto sobre a qualidade do ar quanto das águas subterrâneas. Mas o cerne da prova realmente estava em questões clássicas.

A prova da exigência de temas atuais se deu nas questões nº 36, sobre a triste realidade atual dos refugiados de guerra (migrações), do onipresente aquecimento global (nº 40), ao lado de outras questões ambientais, como o desmatamento da Amazônia (nº 42) e a poluição das águas (nº 46).

A habilidade na interpretação de tabelas, gráficos e mapas foi fundamental para responder à questão de Hidrografia (nº 35) e de Geomorfologia (nº 39), que abordava os tipos de rocha, outro assunto clássico e ultimamente pouco cobrado nos demais vestibulares.

 

A 2ª fase da Fuvest 2017 foi pelo caminho contrário ao da 1ª fase, pois na maior parte as questões de Geografia foram sobre temas atuais, como a nº 7, sobre o desmatamento e aquecimento global, e a nº 2 (do segundo dia, ou seja, na prova geral), sobre os movimentos sociais urbanos, ultimamente figurando na mídia com frequência cada vez maior – como, por exemplo, as manifestações contra a corrupção. Até o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), tema mais do que atual, foi abordado (nº 8), mais uma vez exigindo um candidato com cultura geral ampla.

 

 

Unicamp

Mesclando questões clássica e atuais, a Unicamp 2017 exigiu em Geografia capacidade de análise, interpretação e domínio de conteúdo. Também pesou a boa capacidade redacional.

Foi admirável o equilíbrio de assuntos da 1ª fase do vestibular, com questões que abordaram tanto temas clássicos da Geografia, como o tradicional estudo da urbanização (nº 70) e do crescimento populacional brasileiro (nº 72), e a própria abordagem física, sobre o comportamento das massas de ar (nº 69) e dos manguezais (nº 68), quanto temas de atualidades, como o avanço do fundamentalismo islâmico (nº 38), o agronegócio brasileiro (nº 74) e o processo de globalização (nº 71).

A importância dada a assuntos atuais foi fortemente evidenciada na questão sobre o desastre de vazamento de lama argilosa de dejetos da atividade mineradora da Barragem do Fundão, em Mariana, MG, que resultou em um desastre ambiental no Rio Doce, que levará décadas para ser consertado.

 

Essa mescla de Geografia clássica com atualidades resultou em um grau de complexidade que, apesar da elevada, permitia ao aluno preparado uma boa demonstração de seus conhecimentos, de maneira fluida. A interdisciplinaridade com Química, por exemplo, indica o nível de preparo e interação que esse aluno deveria ter.

A 2ª fase do exame seguiu o mesm caminho da 1ª dase. Questões clássicas, da Geografia tradicional, como a de urbanização (nº 5, sobre cortiços) ou de cartografia (nº 1, sobre tipos de projeções), se revezaram com as de atualidades, como o atualíssimo MAPITOBA (nº 4, sobre o avanço da soja no Brasil, nos quatro estados da sigla), a questão energética (nº 2, sobre a formação do carvão mineral, e nº 3, sobre hidrelétricas) e o constantemente comentado conflito árabe-israelense, ou seja, a ainda não solucionada Questão Palestina (nº 6).

 

 

Vunesp

Das provas de Geografia, a mais simples e eficiente em sua avaliação foi a da Vunesp, apresentando também questões interdisciplinares e contextualizadas.

Apesar de ter um grau de complexidade mediano, a prova da 1ª fase foi muito bem elaborada, de modo a exigir diversos campos de estudo da Geografia. Porém, a presença de questões de Geografia Física foi maciça, abordando Geomorfologia (tipos de rochas, na nº 48), Climatologia

(El Niño, nº 49) e Cartografia (escala, nº 4), o que reforçou a presença de questões clássicas, incluindo as de urbanização (desmetropolização, nº 46) e industrialização (nº 38, nº 39 e nº 44).

 

Em proporção ao total de questões, o tema sobre meio ambiente chamou a atenção, principalmente com questões sobre a água (nº 51 e nº 52) e o aquecimento global.

Já a prova da 2ª fase foi multifacetada, com as quatro questões abordando assuntos diametralmente opostos: duas de Geografia tradicional, ou seja, clássicas (nº 5 – Geografia Física/|Hidrografia, e nº 8 – Brasil: divisão regional) e duas de questões de atualidades, com a constante preocupação com a preservação do meio ambiente (nº 7 – biopirataria) e com o contexto econômico (nº 6 – globalização).