Leituras Obrigatórias


Os professores do ETAPA comentam alguns dos livros exigidos como leitura obrigatória nos seguintes vestibulares:

FUVEST

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ETAPA - Comentário do livro Mayombe

Mayombe

Pepetela

COMENTÁRIOS ETAPA

Movimento literário: Modernismo contemporâneo (Angola).

Características

Estilo:  linguagem fluida, leve e correta.

Narrador: em 1a pessoa, por meio dos personagens que fazem relatos de suas experiências pessoais e em 3a pessoa, em que o próprio autor, através de suas experiências, expõe as mazelas e os desafios de pertencer a um grupo guerrilheiro.

Cenário: Mayombe é uma floresta tropical situada na região norte da Província de Cabinda, com fronteira com o Congo Brazzaville e a República Democrática do Congo. Apresenta uma densa vegetação com árvores frondosas e de grande valor econômico. No livro de Pepetela, serve de pano de fundo para os guerrilheiros que lá encontram seus sustentos quando a comida demora a chegar em seus abrigos. Entre os guerrilheiros e a floresta existe uma interação simbiótica. Mayombe constitui uma espécie de extensão da luta representada pela libertação de Angola em oposição a outros espaços ocupados pelos portugueses (os tugas).

Estrutura do grupo guerrilheiro de Mayombe:

Os guerrilheiros são conhecidos pelos seus codinomes (ou suas funções).

ETAPA - Guerrilheiros Mayombe

Personagens:

•Teoria: a primeira personagem desse processo polifônico. Nascido na Gabela, é filho de mãe negra e pai branco. O fato de ser mestiço o incomoda e, por isso, vê na guerrilha um modo de expurgar esse “pecado original”.

•Milagre: é a segunda personagem a se apresentar. Ele pertence a uma determinada tribo, com hábitos e tradições distintas dos demais. Mesmo participando do movimento, ainda não rompeu com os traços de sua origem.

• Mundo Novo: no processo polifônico, Mundo Novo é o terceiro a ter voz na narrativa. Indispõe-se com Comandante, não chegando a entender perfeitamente o pensamento e o modo de agir de Sem Medo, a quem chama de “pequeno-burguês com traços anarquistas”.
Como marxista-leninista, se diz não egoísta e acredita que só as massas constroem a História, sem diferenças de cor ou origem.

Muatiânvua: é outro personagem a tomar a voz na narrativa. Filho de um mineiro, que morreu tuberculoso logo após seu nascimento, caracteriza-se por ser destribalizado, acredita em uma revolução por e para Angola inserida em um contexto mais amplo, a África. Sente-se marginalizado, “posto de lado”. Exerceu várias atividades – marinheiro, contrabandista, ladrão – antes de ingressar na guerrilha. Para ele, todas as imagens se resumem no brilho do diamante, maior riqueza mineral do país.

•André: comandante administrativo de Dolisie. É relapso e desvirtuado. Comete deslizes de todas as ordens, o que põe em dúvida não só sua integridade moral como seu papel de líder. Rivaliza-se com Sem Medo, não percebendo as intenções do comandante da base de Mayombe, mas acreditando que ele faz de tudo para assumir o seu lugar. Seduz Ondina, noiva do Comissário e é pego em flagrante. É punido com a perda do cargo que desempenhava e removido para outro lugar, mas acredita que tudo não passou de um golpe.

•Ondina: é professora em Dolisie. Noiva do Comissário, não tem com ele uma afinidade sexual e entrega-se a André e depois ao Comandante. No entanto, ama o Comissário e divide esse amor com o Comandante. Ela desiste de ter uma vida ao lado do Comissário e termina tudo antes de ser transferida para outro reduto. Entrega-se ao Comandante nutrindo por ele um misto de amor, desejo e proteção. Representa a mulher que transforma o meio e as pessoas com que convive..

•Lutamos: único do grupo originário da região de Cabinda, precisa provar a todos os companheiros que não é traidor. Ele e Sem Medo guerreiam juntos há mais de dez anos. Destemido e corajoso como o Comandante.

•Comissário: tem 25 anos e é dez anos mais novo que o Comandante. Escreve a última interferência em primeira pessoa, no epílogo. Acredita que guerra popular “não se mede em número de inimigos mortos. Ela mede-se pelo apoio popular que tem.” Vai crescendo no seio do movimento, passando por uma “dolorosa metamorfose” quando da morte de Sem Medo. Reconhece que Sem Medo é Ogum, o Prometeu africano.

•Sem Medo: a Imagem desse guerrilheiro é construída a partir das referências feitas a ele nos escritos em terceira e primeira pessoas. Ele não assume a primeira pessoa no livro. Sem Medo faz parte da tribo Kikongo, é o mais doutrinado e politizado do grupo e responsável por passar sua ideologia aos demais. Abandonou o curso de Economia em 1964 para ingressar na guerrilha.
É responsável por fazer as reflexões sobre o Partido, a ideologia, os indivíduos comandados e as ações a serem executadas. Lúcido e pragmático, age orientando, ensinando e expondo seus ideais revolucionários. No entanto, seu pragmatismo exige luta armada e seu ideal é uma sociedade igualitária, de facção marxista, em que o homem não explorará o homem. Sem Medo acredita que a revolução é percurso para atingir um fim, não importando os meios para a obtenção dos resultados.

•Considerações finais: A obra de Pepetela simboliza o início da operação guerrilheira em território africano. A morte do Comandante, ao final do romance, marca a integração entre o homem e a Pátria angolana que surgirá.
Ao ser enterrado na floresta, misturou-se às folhas em decomposição de Mayombe. A trajetória desse guerrilheiro é sua inserção ao meio, que personifica o mito de Ogum – o Prometeu africano.

O Mayombe tinha criado o fruto, mas não se dignou a mostrá-lo aos homens: encarregou os gorilas de o fazer, que deixaram os caroços (de comunas) partidos perto da Base, misturados com as suas pegadas. E os guerrilheiros perceberam então que o deus-Mayombe lhes indicava assim que ali estava o seu tributo à coragem dos que o desafiavam: Zeus vergado a Prometeu, Zeus preocupado com a salvaguarda de Prometeu, arrependido de o ter agrilhoado, enviando agora a águia, não para lhe furar o fígado, mas para o socorrer. (Terá sido Zeus que agrilhoou Prometeu, ou o contrário?)
A mata criou cordas nos pés dos homens, criou cobras à frente dos homens, a mata gerou montanhas intransponíveis, feras, aguaceiros, rios caudalosos, lama, escuridão. Medo. A mata abriu valas camufladas de folhas sob os pés dos homens, barulhos imensos no silêncio da noite, derrubou árvores sobre os homens. E os homens avançaram. E os homens tornaram-se verdes, e dos seus braços folhas brotaram, e flores, e a mata curvou-se em abóbada, e a mata estendeu-lhes a sombra protetora, e os frutos. Zeus ajoelhado diante de Prometeu. E Prometeu dava impunemente o fogo aos homens e a inteligência. E os homens compreendiam que Zeus, afinal, não era invencível, que Zeus se vergava à coragem, graças a Prometeu que lhes dá a inteligência e a força de se afirmarem homens em oposição aos deuses. Tal é o atributo do herói, o de levar os homens a desafiarem os deuses. Assim é Ogun, o Prometeu africano.
(Mayombe, p. 67-68.)